Olá Literático(a)!
Se você tem uma vida corrida e não tem tempo para ficar clicando de página em página para ler as colunas mais literáticas da internet, esta página pretende resolver o seu caso.
Aqui estão somente os artigos atuais das colunas do site: O Literático, reunidas para uma leitura rápida, por acessível e descomplicada.
Coluna: Literaticando
Dicas e conselhos para literáticos:
Existe somente um poeta dentro de você. Não tente ser o que você não é só porque este tal ser ideal é mais bem-sucedido do que você; lembre-se de que o verdadeiro grande poeta já está pronto, e apenas espera que olhem para ele. Enquanto isso, aproveite para se fortalecer, ganhar bagagem literária, para quando todos te olharem, terem a certeza, sem pestanejar, de que você merece reconhecimento.
Se você for mesmo poeta, aprenda a ser um poeta e não somente a versar... faça isso lendo biografias de poetas, seus textos sobre a poesia e a literatura no geral, assim também como as críticas e os estudos acerca deste e daquele seu poeta favorito? Não... leia sobre todos eles... leia até sobre os piores, pois, quando você disser que não gosta de um tal poeta, irão te perguntar por que de não gostar... e a resposta mais feia e ridícula é dizer; - Porque não gosto. Respostas como estas são para leitores e não para poetas... poetas têm um motivo para não gostar. Se não gostou, interrogue-se por quê... talvez seja inveja. Acontecerá muito. Acredite.
Não se guie pela opinião dos outros... guie-se pela sua opinião da opinião dos outros. Sabe, quando uma pessoa opina sobre a sua obra, ela fez a conclusão dela de acordo com os sentimentos e os preconceitos dela... saiba identificar somente o efeito do seu escrito sob aquela pessoa, e não o que ela "acha que seria melhor você escrever".
Se você for prosador, pense que está conversando com uma pessoa cega, muda, surda, sem paladar, sem sensibilidade nenhuma da realidade, e que o único contacto que essa pessoa tem no mundo é você... ou seja: ela terá a idéia que você descrever para ela deste tal mundo, portanto: não economize em palavras com siginificados e aspectos diferentes... mas corte todas as que querem dizer e rebuscar a mesma coisa. Imagine-se pintando um quadro... e que muito detalhe ajuda somente se este detalhamento for útil ao detalhamento das imagens... ou seja: se o descrito for o detalhe das coisas... mas, se forem somente as coisas... diga o que elas são, somente, sem dizer o que parecem ser. Isso é diferença entre objetividade e subjetividade na descrição, que, mesmo na literatura, tem de ser clara e objetiva, tendo somente uma descrição de sentimentos como algo subjetivo.
Se quiser aprender na prática, ou seja: lendo, aprenda estilos franceses, pois são mais rebuscados. Dou-te como exemplo: Balzac, Baudelere, Victor Hugo e Proust, e todas as bi-traduções do Russo para o Francês e do Francês para o Português, como: Dostoiéviski, Górki, Tchecov, Tólstói E Gógol. Assim, como também indico uma leitura de Kafka em Alemão... se puder, pois todas as traduções diretas para o português são cheiras de travessões, que quebram o raciocínio de um discurso contínuo e denso... que o Kafka "tinha" e os franceses destruíram.
Se quiser aprender lendo, leve em conta o estilo do escritor, que nada mais é do que sua dificuldade de expressão, ou seja: as preposições, as ligações de períodos, as entre-vírgulas... ou os entre-travessões, as duplas reticêncas... e, acima de tudo: o início dos capítulos. Isso te ajudará a ter afinidade com uma personalização do narrador, aumentando aquela vozinha que fala dentro de você enquanto você escreve.
Se você for escrever um conto... pense que a pessoa (o leitor) está esperando um ônibus, e que, a qualquer momento este ônibus pode chegar... portanto: saiba o fim do conto antes de pensar em contá-lo, assim você controla a extensão de tempo de leitura e já tem montada a moral da história.
Bem... por enquanto é só isso que eu acho que sei... depois darei mais dicas, "se aprender mais comigo mesmo, e a cada dia, a cada livro que eu escrever". Espero ter te ajudado, ou ao menos confundido.
Se souber mais coisas, publique, não tranque o conhecimento que você conquistou com a prática, pensando ser leviano ou caracteristicamente só seu, pois ele é o que torna um escritor grande, e plurificando: toda uma literatura... grande. Somente.
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Coluna Croniticando:
LER OU NÃO LER: DIFÍCIL QUESTÃO DE HÁBITO
Escrevo sobre leitura e não sei ainda se devo fazê-lo como professor ou como escritor. Acho que se o fizer a partir de qualquer das duas perspectivas, terei que encarar a dura questão do desalento que a constatação de que às vezes pareço estar escrevendo para ninguém existe e que eu tenho que inventar uma esperança, como prega a introdução do espetáculo “Alegria”, do prestigiado Cirque du Soleil.
Não sei dizer motivos, mas não há formado na maioria esmagadora dos brasileiros o hábito da leitura. Quase ninguém quer ler, no Brasil. Um professor fica desalentado com isso, porque ele depende de leitura para que haja evolução de qualquer conteúdo e para que a sociedade evolua. Só vale a pena, de fato, ser educador se os resultados da educação levarem o país a tornar-se mais civilizado e consciente de seu papel no mundo. E isso a leitura pode ajudar a conseguir. Um escritor fica igualmente desalentado porque pensa sempre que seu empenho em produzir idéias escritas tem pouquíssimo retorno.
Como se forma um hábito? A última curiosa menção a tentativas de formar hábito que ouvi foi numa palestra sobre problemas de saúde, num daqueles encontros de trabalhadores que se nomeiam com a sigla SIPAT, ou Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho. A palestrante, da área de saúde, dizia que um hábito é formado a partir da repetição 40 vezes seguidas de um estímulo. Ela justificava que tal número encontrava-se em várias passagens da Bíblia e em outros escritos e que deveria conter algum conteúdo para que fosse seguido.
Independentemente de superstições, resolvi acatar, para buscar algo que significasse a reinvenção da esperança, a idéia do número 40 como indutor do hábito, se associado a um estímulo.
Mas ler 40 vezes seguidas o quê? Até que se leem baboseiras aos montes neste país. Eu já me cansei de tantas apresentações de eventuais conteúdos de palestras feitas em programas de computador que serviriam como apoio a palestrantes, mas que são verdadeiras chatices enviadas por e-mail a milhões de internautas em que se contam as mesmas histórias, com metáforas supergastas, erros de linguagem aos montes, músicas para lá de cafonas e uma produção muito pouco atraente. A última, que não me dignei a abrir, foi a que trazia uma dieta da alma. Posso até imaginar as estupidezas: no café da manhã, alimente-se de amor; incremente-o com sinceridade, ao dar um natural e autêntico bom-dia a quem você ama, etc. Quando chegar ao final do dia, já estarei com insônia.
Para longe dessas coisas pouco edificantes, de tão primitivas, existe a poesia, que banimos de nossa literatura, infelizmente. Um autor que ainda permanece graças aos livros didáticos, entretanto, é Carlos Drummond de Andrade. Mas, acho que a falta de sabor que professores de literatura imprimem aos textos desse grande poeta não pode ir além de algo meramente decorativo, para servir a respostas a exames, mais nada. Sem querer julgar ninguém, porque eu também sou professor de literatura, valho-me da preciosa força da ironia sutil e muito criativa do mestre Drummond de Andrade para tratar de seu poema “Declaração de amor”, aquele em que ele chama a amada por nomes de flores.
Ele desfaz do amor romântico, não o atacando diretamente, mas apenas com a sutileza de dar ao ser amado a alcunha de flores com nomes que em português têm sons não muito eufônicos. Assim é que a amada vira urze, cimbídio, clívia, gérbera e outros nomes que vão além dos banais cravo e rosa, que não são banais em si, mas no uso abusivo que se faz do conceito que as palavras cravo e rosa expressam – quero deixar isso bem claro!
Para concluir essas soltas idéias sobre leitura, proponho, para o texto de Drummond, uma leitura viva. Fiz uma apresentação, nesses programas feitos para palestrantes, que reproduz com ilustrações obtidas da Internet, uma a uma, cada uma das flores mencionadas pelo poeta em seu poema. Também sobrepus uma declamação feita por ele, num disco que recebi de presente. Desisti, na última hora, da declamação, porque não conseguia sincronizá-la muito bem com a passagem de uma lâmina da apresentação para outra. Isso é mero detalhe, porém. O que importa é que busquei demonstrar o poema, sob forma visual.
Mas o maior sonho com relação a esse poema é torná-lo ainda mais vivo: compor um jardim com as flores na seqüência em que aparecem nos versos do poeta. A ideia complementar é rotulá-las com os versos e expor o poema-jardim, assim composto, para o deleite de quem o possa lê-lo ao vivo. Além de uma declaração de amor com a sutil ironia do poeta, teríamos a declaração de amor viva, na exuberância da natureza que ele proclamou junto à amada.
Se conseguíssemos, de alguma forma, escritores e professores, traduzir sob forma viva nossos escritos, acho que haveria a procura por ler cada vez mais. Mas, acho que não precisaríamos sempre ser tão produtores de formas vivas adaptadas a partir dos textos. Teríamos que encontrar formas de despertar nos leitores a condição de eles empreenderem a viagem imaginada à essência viva dos textos. Isso, por acaso, seria curiosidade, aquela faculdade do ser humano que a escola ajuda a matar, a partir da primeira infância, quando os pequenos são levados pelos pais, pobres incautos, ao universo das escolas? Ai, escrevi além da conta! E os escritores, será que deveriam existir apenas para caber nos livros didáticos? Epa, extrapolei!
Acho melhor ficar com a leitura viva do poema-jardim.
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Interação Literária:
Amigo das letras...
Parece magia da criação..., o Poeta parece ter o dom de trasnformar o desentendimento individual, e desordenado das letras, em obras belíssimas, gostosas de se ler..., quando recolhido às sua inspirações, ele parece interagir com elas e chamá-las para que pousem de forma alinhada no papel e numa sinergia perfeita de criador..., desenhem cuidadosamente em palavras os mais belos poemas.
Amigo das letras...
Quando em grupos desordenados
Descontroladas num som qualquer
Um arghsdont, ou trendsat...,
Um seiláquê, que confusão
Desordem total..., não dá prá ler...
Letras sem rumo, sem direção...,
O céu e a lua..., eu e vocês
Temos encantos..., na relação...
Lindos poemas, belas poesias
No sincronismo, na inspiração...
Juntos fazemos dessa união
Cobinações com maestria,
Trovas, poemas, contos..., poesias...
Vocês em palavras que na leitura
Vão se formando...
Revelam sons aos seus leitores,
Nos seus momentos, reflexões...
Seus pensamentos, recordações...
E vai fluindo, em poucas linhas
Um verso novo, um "faz sentido..."
Um conto novo, ou poesia...
Vai se formando dessa união...
Somos assim, eu O Poeta
No pensamento, inspiração...
Vocês as letras, que são leitura..., realização.
Amigo das letras,
Como é bom ser assim...
E por assim ser chamado...,
Agradeço a vocês...
Pela presença do meu comando...,
Obras formarem..., nessa união...
Mais um pouquinho, fiquemos juntos
Nesta que agora, está terminando
Prá retornarmos com harmonia
Noutro momento..., no entendimento,
Novo poema, ou poesia...
Como canção...
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Coluna Senso e Ponto: Viva Chama

“Tigre, tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama...” William Blake
Uma ótima novidade literária é o que podemos encontrar no livro, recém lançado pela Bertrand Brasil, Viva Chama (Burning Bright, tradução de Beatriz Horta, 416 páginas, R$ 45,00) da autora best seller Tracy Chevalier, principalmente pela abordagem que a autora dá à cidade de Londres do século 18, e a um personagem histórico em especial, William Blake. Comparado com Lovecraft, pela cosmogonia pessoal, com Philip K. Dick por acreditar que o mundo que vemos não é o mundo real, com W.S. Burroughs pela composição de nova forma de literatura sem nenhum tipo de condicionamentos, Blake abria as portas da percepção para outros níveis de liberdade. O título do livro já deriva de um dos seus versos mais conhecidos, The Tyger (O tigre), uma exegese clássica que levantou por gerações inúmeras discussões.
A autora é conhecida por ter estabelecido uma fórmula que a deixou conhecida por seus trabalhos: escolha um período histórico com uma figura reconhecida ou um trabalho de arte, ambiente, dê vida e voz a personagens fictícios, as envolva num texto fascinante que recria as atitudes e o espírito de uma era. Foi assim com O azul da virgem, onde combinou arte e história, narrando como duas mulheres que viveram a séculos de distância descobrem que uma herança ancestral as une, a partir de uma pintura de uma igreja medieval. Como também em seu romance de maior sucesso, Moça com o brinco de pérola, onde relata a história de uma adolescente que servirá para modelo dos quadros de Johannes Vermer, mas dará mais do que isso ao pintor: movimento, sentido, paixão, ânsia e alma. Outra criação sua, A Dama e o Unicórnio, construiu um universo ao redor do famoso tapete homônimo, que hoje em dia, se contempla fragmentos da obra do século XV. Todos os seus romances são assim, cuidadosos em relação à História e à Arte, mesclando a ficção em meio à sensualidade e ao sentimento de seus personagens, acolhendo o leitor com uma linguagem envolvente.
Inspirado assim, pela poesia de Blake, Chevalier usa o famoso personagem como um catalisador de duas histórias de amor, a de dois jovens e a que Blake Um homem que sempre lutou para ser reconhecido, mas foi só após sua morte que seu talento foi apreciado. Blake era um visionário religioso e místico, um defensor do livre amor sincero e um crítico da política reacionária inglesa. E como vizinho da família Kellaway que o poeta entra na história. A família do artesão Thomas Kellaway veio de um condado no sudoeste inglês para a capital Londres, após a morte acidental de um de seus filhos e estimulada por um dono de um circo. Chegam ao mês de março de 1792, em pleno terror antijacobino todos ficam se sentindo esmagados pela grandeza e pela feiúra contrastante da cidade. Thomas, fabricante de cadeiras, consegue trabalho no circo do excêntrico Philip Astley, cujo espetáculo de fogos de artifício causa furor semelhante às execuções na guilhotina em Paris. Seus filhos, Jem e Maisie, além da recém amiga Maggie serão marcados pelo convívio com o poeta.
Blake se converte no “mestre da inocência”, pois enquanto aquela família vive em Londres, ele passa a ser uma espécie de mentor dos três jovens. Blake, ainda bem jovem, acompanha e participa da relação entre os jovens, explorando o estado de inocência e experiência, tema de sua obra-prima, Canções da Experiência e da Inocência. Ele será o vizinho amável, compreensível, conciliador e extravagante, que aparece e desaparece ao longo da trama, enquanto sua figura se fixa presente em todo o romance e os jovens protagonistas criam laços cada vez mais sérios. Chevalier firma a perda da inocência infantil e como o papel da arte se envolve nesse processo.
Num cenário dickersiano, bem descritivo por sinal, Chevalier retrata bem a época. A autora fez um trabalho de pesquisa impecável, cuidadosamente resgatando os costumes e as paisagens da cidade e arredores de então. Evocando os sons da Londres de 1792, envolta em neblina e fumaça de carvão, movimentada com seus vendedores ambulantes, charlatães, prostitutas e ladrões, Chevalier capta aqueles cidadãos ma aurora das mudanças radicais que viriam que irão moldar os séculos vindouros. Ótima leitura
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Coluna Leia:
A Voz Que Cala
1
- José você entendeu o que eu lhe falei?
Indaga o homem gordo, avermelhado, sentado no sofá, com o cigarro entre os dedos roliços, fitando o outro magro, amulatado que está à sua frente, também num sofá:
- Entendi sim senhor.
O gordo sorri:
- Então, me diga o que eu lhe falei.
Com a voz calma, José atende-o, repetindo o que ouvira:
- Espero o Bastião na curva da saída da vila e... “acabo” com ele.
- Sim, entendeu. Você sabe “trabalhar” e não será agora que me desapontará. Mas, é sempre bom ter cuidado pra não ser visto.
- Pode deixar patrão. Sei como fazer.
O gordo se ergue e com a vista na janela à direita, que lhe mostra o terreno com o capim verde e algumas vacas pastando:
- Vou lhe adiantar uma quantia e depois, a gente acerta tudo.
Pondo então a mão no bolso das calças, em seguida a traz com a carteira e, escolhendo três cédulas, repassa-as à mão de unhas sujas, calosa.
- Segura!
A mão trêmula recebe as cédulas.
- Obrigado, Seu Colaço. Pode ficar sossegado, que vou cumprir a “empreitada”.
- Certo José. Agora, pode ir.
Humilde, cabisbaixo, devagarzinho José retira-se da sala larga, de móveis artesanais, antigos.
Colaço retorna a atenção à paisagem de fora, com o capim verdoso e as rezes pastando. O Bastião andou uns tempos na capital e voltou para aqui, no sertão, com “idéias” comunistas, desigualdades e, ultimamente, anda, com o pessoal ignorante, fácil de ser “labiado”, a invadir as propriedades circunvizinhas e, por último, invadiu a parte de cima de sua fazenda, nesse movimento de reforma-agrária... Pensou, pensou e encontrou a solução prática: liquidá-lo. Com o líder fora de ação, os demais peões aos poucos retornam à vidinha de antes, à normalidade antiga.
- Um safado com essa de tomar o que é alheio! Pra gente ruim só tem mesmo um jeito...
Então, chamara o José (que já lhe prestara outros “serviços”) e, agora é só esperar para saber o resultado.
Traga e apaga o cigarro no cinzeiro sobre a mesinha ao centro da sala. Feito isso, ausenta-se do ambiente. Cuidar de ver como estar o serviço de conserto da cerca em volta do açude grande.
- Se a gente não estiver por perto, a “cambada” se aproveita, fica se “escorando”, o serviço não rende.
Cruza o terraço em L defronte a casa grande e apressado caminha em sentido dos trabalhadores que erguem a cerca adiante, ao lado oposta do açude.
O sol queima no céu. A camisa se cola às costas. Aligeira-se. Deveria ter trazido o chapéu...
- Bom dia.
- Bom dia, Seu Colaço.
- Como é, dá pra terminarem o serviço hoje?
- Dá patrão. Com fé em Deus, a gente acaba ainda hoje.
Então, os olhos práticos estudam os movimentos dos homens, tirando conclusões.
- É apressem isso, que temos outras tarefas pra fazer.
- Sim, Seu Colaço.
Afasta-se, ativo, zelando pelo que é seu. Saber que o Bastião chegou assim de repente da cidade com essas idéias “modernas”...
- Um safado que mal sabe assinar o nome, mas ele vai ver o que “é bom pra tosse!”.
Que danado aqueles dois meninos estão fazendo ali, correndo com as espingardas? Será que estão assim armados a serviço do comunista?
- Até os meninos estão se influenciando!
Apressa-se mais, avizinhando-se, para saber, no cuidado de preservar o que lhe pertence, tirar a dúvida.
Os meninos notando-lhe a aproximação passam sob o arame da cerca e se perdem no terreno vizinho, deixando-o mais desconfiado. Mas... O José é bom no gatilho e tirará o Bastião do jogo. Caminha. Lamentando mais uma vez não estar com o chapéu.
- Calor danado! Desse jeito vou assar a cabeça.
Sorri com o próprio deboche e vistoria a propriedade. Sua propriedade...
2
- Bastião você tenha cuidado com essa história de invadir o que é dos outros...
O homem então se volta e fitando o rosto magro, castigado pelos sofrimentos da pobreza:
- Cícera você até certo ponto tá certa. Mas, a gente que trabalha pra os outros, tem de ter mais condições. Viver melhor...
- Eu sei Bastião. Mas, sempre teve pobre no mundo e sempre terá. Deus criou o mundo assim mesmo.
- Não, Deus criou o mundo para todos ter uma vida melhor. Eu tiro por a gente: que é que nós tem? Nada, Cícera! Até essa casa é do dono das terras, é de Seu Janjão. E a gente que dê duro, que plante que...
A mulher então mais uma vez se impacienta, sem concordar com o marido:
- Bastião abra os olhos, criatura! O mundo não é como a gente quer não. É dureza, homem! Você pode entrar numa “enrascada” e se lembre de que tou grávida...
Bastião nada mais diz. Põe o chapéu na cabeça e deixa a salinha:
- Até mais tarde.
- Vai com Deus, Bastião!
À porta, ela fica vendo-o se afastar. Alto. Magro. A cabeça caída sobre o ombro esquerdo. Os braços longos. O cabelo crescido, alourado. As calças desbotadas pelo uso. A mão direita com a enxada... O coração se aperta. Não Senhor, evite que algo ruim possa suceder ao companheiro. Senhor lhe dê conselho...
No ventre, o filho se mexe, anunciando-se. A mão nervosa acaricia a barriga volumosa. Quem sabe se o filho que virá não terá uma outra vida, será diferente do pai? Mas, por enquanto, o melhor é mesmo ir cuidar de suas obrigações domésticas.
Retrocede à salinha, ao corredor e na cozinha, acendendo o fogão-a-barro, põe o caldeirão, com o feijão para o almoço.
Atrás da casa, no cajueiro a rolinha fogo-apagô canta. Quebrando a paz da manhã com o canto entoado, tristonho e belo.
- Bichinha boa de bico!
Devagarzinho, mexe o feijão.
3
Atrás do tronco grosso da árvore velha, José espera. A noite ainda está nova. Próximo um grilo solta o cricrilar cadenciado, ininterrupto. Distante um cachorro ladra. Uma ave corta as trevas noturnas com o vôo de uma árvore a outra.
O Bastião deve estar chegando. A reunião do dito sindicato já terminou. Escutou mesmo os sujeitos vindos de lá, quando há pouco, passaram por essa estrada daqui, palestrando:
- O Bastião é um maturo sabido.
- Não perco mais as reuniões. Só assim a gente fica ciente das coisas.
- Apois é. O Bastião tá certo no que fala pra nós.
Passaram, comentando o encontro com o líder que, provavelmente, planeja nova invasão de posse de terras. Mas, hoje, ele, José, acabará com essa ousadia!
Aguada, como um animal à espreita da vítima que, inocente, se aproxima.
- O Bastião tá vindo.
Reconhece-o. Alto. Magro. O andar apressado, as pernas meio abertas, fazendo arco. Os braços sacudidos. A cabeça de lado sobre o ombro. Engatilha a arma. Os passos se avizinham. As alpercatas pisam com força a areia, afastando pedrinhas... Atira. Três vezes, o corpo se enverga caindo.
Profissional ele então se achega, para se certificar.
- O homem já era.
Conclui e vira as costas ao corpo que vai se aquietando, aquietando...
Assustada com as detonações, a ave voa de uma árvore a outra. Distante, o cão prossegue latindo. O grilo cricrila, como se nada houvesse acontecido.
4
- José tou satisfeito. Segure o restante do “pagamento”.
- Obrigado, patrão. Precisando...
Então, a mão de unhas sujas e calosas mais uma vez recebe as cédulas. O sorriso desponta no rosto magro e, em silêncio, novamente José se retira da sala grande, enquanto o gordo acende o cigarro, pensativo. Assim é a vida. A gente tem de se defender, proteger o que nos pertence. Custe o que custar!
Através da janela enxerga o pasto verde, com as vacas se alimentando, sob a luz quente do sol matutino.
- Custe o que custar!
Repete-se e traga, com força.
- O cigarro pode fazer mal, mas, distrai as idéias.
Então, com frieza, sem alma, sorri, satisfeito com a vida.
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