Céu e Inferno

Ele está na cadeira-de-balanço, no quarto, junto à janela larga que mostra os telhados das residências embaixo e mais adiante, os edifícios da avenida transversal. A tarde vai passando. A mulher aqui, na varanda, também em outra cadeira (sendo que esta é de balanço), reflete. O que é a vida: o Gilberto está hoje numa cadeira, com o braço e a perna esquerda sem movimentá-los e, o que é pior, até a voz é articulado com dificuldade e, tudo isso em conseqüência do derrame recente. Quem o viu ativo, falando alto, autoritário, poderia imaginá-lo um dia assim?
- São os designo de Deus.
Sim, todos nós obedecemos a uma ordem imposta, custe o que nos custar! É o preço que se paga pelo que se faz.
- O céu e o inferno são aqui mesmo.
Dizia o seu pai, quando vivo ao comentar a vida, citando histórias, dando exemplos. Hoje, sente o peso dessa realidade. Quem, como ela sofreu sob o comando do marido, naquela arrogância de machão e o ver “vegetando”...
Do passado chegam-lhe os gritos:
- Giselda você não sabe controlar a despesa, é um desastre!
Ela baixava a cabeça, humilde, trêmula, receando falar, se defendendo e ouvir novos gritos.
- Diabo de uma mulherzinha que não sabe fazer nada!
As lágrimas banhavam-lhe as faces, as mãos frias, a blusa colava-se às costas pelo suor nervoso, a cabeça rodando...
- Não sei por que fui me agradar de você.
Quantas vezes a humilhação de ser assim tratada?
O tempo passando. A velhice precoce chegando... A desilusão vencendo-a e, como se tudo isso não lhe bastasse, ainda soube que o marido tinha amantes.
Até a própria filha, a Luzia, se revoltava com o tratamento que o pai lhe dava:
- Papai está demais! Trata a senhora muito mal. Chega a me revoltar. Qualquer hora dessas eu é que vou lhe reclamar. Mamãe reaja!
Ela buscava então acalmar a filha:
- Isso é uma fase Luzia, depois ele melhora.
- Melhora mesmo? Papai é muito arrogante e trata a senhora com grosserias, como se a senhora fosse uma qualquer e não sua esposa...
Então, ela não retrucou, afinal, a filha estava com razão... E resignada tornava a ouvir as implicâncias do companheiro:
- A sopa está sem gosto. Na próxima vez você capriche mais.
O seu silêncio novamente, sua arma der defesa. E a filha:
- Papai está piorando. A senhora é muito boa: agüentar tantos gritos... Sei não.
Refletia. O que Gilberto não faria na indústria da qual era um dos encarregados de turma? O que os funcionários não passariam sob o seu comando? Quantas mocinhas não seriam submetidas as suas “cantadas” para depois lhe servirem de amantes nos leitos de motéis? Mas, um dia ele teria de pagar seus pecados... Então ocorreu o derrame, lá mesmo na firma, após uma reunião na qual ele fora substituído na chefia pelo seu auxiliar. Quando soubera do ocorrido, ele já se encontrava no HR, na emergência.
- Vamos mamãe visitar o papai.
- Sim, vamos Luzia.
O rosto muito pálido, os olhos ausentes e a voz baixa, presa a dificuldade de articular as palavras.
- Papai está irreconhecível. Acabou-se.
Baixando a cabeça, ela então chorou, libertando o que guardava há muito tempo.
A Luzia cuida do pai. Ela se limita a ficar afastada, no receio de irritar o enfermo com sua presença. Os dias passam.
A filha de repente desperta-a ao presente:
- Mamãe saia dessa varanda. A frieza dessa boquinha da noite pode lhe fazer mal, a senhora pode gripar.
- Sim, você esta certa.
Ergue-se e como um autômato segue a filha em direção ao quarto do doente, para ficar à porta, seguindo a cena conhecida e já adaptada ao próprio modo de viver. Quem sabe? Um dia, assim pode se encontrar no leito, à semelhança do Gilberto...
- Papai?
Os olhos fitam a filha e se fecham, indiferentes a presença solidária, enquanto à porta, a mulher mais uma vez segue a cena, com um certo indiferentismo, na resignação dos vencidos.


