Sobre a Linguagem

28/01/2009 22:05

1. Linguagem

A linguagem é um sistema sofisticado de comunicação que revela a capacidade do ser humano em criar um conjunto
de signos para representar as entidades da nossa realidade.

2. Língua

A língua é um sistema abstrato de regras, não só gramatical, mas também semântico e fonológico, através do qual a
linguagem (ou fala) se revela.
Parece-nos que Martinet (1971) teria sido o primeiro lingüista a apresentar uma distinção clara entre língua e
linguagem. Segundo ele, a linguagem designa propriamente a faculdade de que os homens dispõem para se
compreenderem por meio de signos vocais.

O que é a língua?

Para Martinet, a língua é um instrumento de comunicação por força do qual, de modo variável, de comunidade para
comunidade, se analisa a experiência humana em unidades providas de conteúdo semântico e de expressão fônica.

A conceituação apresentada por Martinet permite que levantemos algumas características da língua: (a) sua função de
comunicação social, (b) seu componente semântico, (c) seu componente fonológico e (d) um certo número de
unidades distintivas - produto das articulações.

Martinet conclui, afirmando que a língua só se manifesta no discurso ou, se preferir, nos atos da fala, mas os atos da
fala (o discurso) não são a língua.

Portanto, a língua é um sistema abstrato de regras, enquanto a linguagem (ou fala) compreende a totalidade de um
comportamento verbal, sendo, pois, sempre individual.

3. Linguagem escrita

A linguagem escrita é tida como uma tentativa de transpor um sistema oral (a fala ou a oralidade) para um nível gráfico.

4. Oralidade x escrita

Há poucos estudos sobre a diferença entre os dois tipos de linguagem. A modalidade oral, intrinsecamente diferente da
escrita, implica um conjunto de recursos, ausentes na escrita, que auxiliam o falante na comunicação lingüística.
Dentre os recursos expressivos, podemos mencionar o timbre da voz, a altura da emissão vocal, o padrão
entonacional, a linguagem gestual, a presença do interlocutor e a capacidade do falante em prender a atenção dos
seus ouvintes. Se por um lado há vantagens no uso da oralidade, a escrita apresenta também a vantagem de servir
para a manifestação de conceitos e desenvolvimento de idéias mais bem elaborados.

Vamos, a seguir, indicar as marcas mais significativas entre os dois tipos de linguagem:

ORAL                                                                       ESCRITA     

a) interlocutor presente                                      a) interlocutor ausente
b) feedback instantâneo                                      b) ausência de feedback instantâneo
c) mais dependente do contexto                        c) menos dependente do situacional
d) espontânea, basicamente sem pensar        d) planejada, admite um planejamento.
e) manifestação instantânea, efêmera           e) manifestação permanente, registrada
f) períodos mais curtos                                         f) períodos mais longos
g) mais condensada                                              g) menos condensada.
h) menor incidência de subordinação             h) maior incidência de subordinação
i) liberdade em relação às prescritivas           i) submissão às regras prescritivas

5. Gramática

O termo gramática admite, pelo menos, três definições:

a) a sistematização dos fatos lingüísticos, abarcando a fonologia, a morfossintaxe e a semântica, conforme um
determinado modelo (tradicional, estrutural ou gerativo-transformacional);

b) o conhecimento lingüístico que todo falante nativo tem a respeito de sua língua, isto é, um conjunto de regras de
número limitado, que fornecem meios para que o indivíduo possa produzir todas as orações possíveis da língua;

c) um conjunto de regras - um compêndio de gramática - que tem por objetivo divulgar princípios para que o
falante possa falar e escrever corretamente. É a gramática divulgada na escola, a fim de distinguirmos o que é
considerado correto daquilo que é tido como incorreto.

Por tradição, divide-se o estudo da gramática em quatro partes:

Fonética e fonologia
(o sistema de sons);

Morfologia
(as formas e a formação das palavras);

Sintaxe
(a inter-relação das palavras na frase e das frases no discurso);

Semântica
(o significado das palavras e suas mudanças).

 Funções da Linguagem

Bühler (1961) e Jakobson (1969) sistematizaram os diferentes fins aos quais se destinam as mensagens da língua,
isto é, as funções da linguagem. Considerando os elementos envolvidos na comunicação lingüística, os autores
apontaram uma proposta a respeito das funções da linguagem.

As funções da linguagem correspondem às diversas finalidades que caracterizam um enunciado lingüístico. A
linguagem desempenha a sua função de acordo com a ênfase que o emissor dá à mensagem. Conforme o foco se
volte ao emissor, ao receptor, ao contexto, ao código, ao contato ou à mensagem, a função será, respectivamente,
emotiva, conativa, referencial, metalingüística, fática ou poética.

1. Função emotiva


Na função emotiva predominam enunciados que expressam, principalmente, a atitude de quem fala com relação
àquilo de que fala. É a função na qual o próprio emissor coloca-se como foco de atenção da mensagem:

O sono está perdido. Sinto-me um pouco só. Acho que estou carente. Pego o telefone. Talvez seja bom falar com
alguém. É muito tarde. Vou fazer um suco de amora. Colhi amoras do
quintal da vizinha. Admito que ela é atraente. Acho que vou convidá-la para um cineminha. Devo acordar cedo, mas
o sono não chega. Vou ler um pouco ou ouvir música. Mozart é relaxante...

2. Função conativa

Na função conativa predominam os enunciados que visam a atuar sobre o destinatário da mensagem. É a função
que apresenta o receptor como foco de atenção. Um exemplo típico da linguagem conativa é o texto publicitário, no
qual predomina a tentativa de persuasão:

Há quantotempo você sonha com um carro importado?
Chegou a sua vez! Você que é moderno, dinâmico e
empreendedor merece o melhor pelo menor preço.
Você vai s sentir elegante e seguro com a beleza e a
tecnologia o Speed. Venha conhecê-lo no nosso showroom.

3. Função referencial

Na função referencial predominam as mensagens centradas no referente ou contexto. É a função que apresenta o
referente como foco de atenção. No texto informativo, jornalístico ou científico, predomina sempre a função
referencial. Suas características são objetividade e clareza:

A II Guerra foi a guerra da sociedade industrial, no que
ela tem de mais avançado e mais tenebroso. O computador,
o avião a jato, o tecido sintético, o radar e o foguete
balístico fora inventados ou desenvolvidos em função
do conflito. O medo de que os nazistas chegassem lá
primeiro levou os Estados Unidos a fabricar a bomba
atômica, queseria jogada sobre Hiroshima e Nagasáki
para encerrara guerra com o Japão.

4. Função metalingüística

Na função metalingüística predominam os enunciados em que o código se constitui objeto de descrição. É a função
na qual o próprio código aparece em destaque. Ocorre metalinguagem quando um texto discute a linguagem,
quando um filme revela implicações técnicas, artísticas ou pessoais do cinema ou do próprio filme, quando um
poema se concentra na própria criação poética etc. Todo discurso acerca da língua, bem como as definições dos
dicionários ou as regras gramaticais são exemplos típicos da função metalingüística:

Toda gente sabe que a língua é variável. Dois indivíduos
da mesma geração e da mesma localidade, que falam
precisamente o mesmo dialeto e freqüentam os mesmos
círculos sociais, nunca estão propriamente a par de seus
hábitos lingüísticos. Investigação minuciosa da fala revelaria
númeras diferenças de detalhe - na escolha do vocabulário,
na estrutura das sentenças, na relativa freqüência com que
são usadas certas formas ou combinações de palavras,
a pronúncia...

5. Função fática

Na função fática predominam mensagens que têm por objetivo principal iniciar uma conversa, atrair a atenção do
receptor, verificar sua atenção, prolongar a comunicação, ou, até mesmo, interrompê-la:

Bom Dia! Como vai você?
Crianças! Atenção por favor!
Vocês estão prestndo atenção?
Bem! Diante dos fatos, o que você me recomenda?
Por favor, pare de falar!

São exemplos típicos desta função a linguagem de cumprimentos ou saudações, as primeiras palavras de quem
aborda um interlocutor, as tentativas de testar o nível de atenção dos nossos receptores, as primeiras palavras de
quem atende ao telefone etc.

6. Função poética

Na função poética predominam os enunciados cuja mensagem se acha centrada em si mesma. É a função na qual a
própria mensagem é colocada em destaque:

Amanheceu pela terra
um vento de estranha sombra,
que a tudo declarou guerra.

Paredes ficaram tortas,
animais enlouqueceram
e as plantas caíram mortas.

O pálido mar tão branco
levantava e desfazia
um verde-lívido flanco.

Das linhas claras da areia
fez o vento retorcidas,
rotas, miseráveis teias.
..........

(Cecília Meireles)

É importante observar que a linguagem, enquanto meio de interação social, normalmente dá ensejo à coexistência
de diversas funções numa mesma mensagem, pois elas estão constanemente se inter-relacionando e imbricando,
embora, obviamente, haja a preominância de uma das funções, caracterizando, dessa forma, a comunicação.


Níveis de Linguagem

A fim de entendermos os diferentes níveis de linguagem e suas mudanças, temos de recorrer à sociolingüística,
ramo da lingüística que tem como foco de estudos a relação direta entre língua e sociedade.

O objetivo principal do estudo dos níveis de fala é encaminhar o estudante a reconhecer as diferenças entre a
linguagem padrão e a linguagem coloquial, para que possa selecionar o registro adequado nas mais diferentes
situações decomunicação.

O domínio dos diferentes níveis de linguagem propicia ao falante oportunidades mais efetivas, para que possa
promover a adequação da sua linguagem às xigências do contexto social e, dessa forma, estabelecer uma
comunicação ingüística mais eficiente.

1. Linguagem padrão

A linguagem padrão (ou culta), utilizada na comunicação formal, é contrlada por um conjunto de hábitos lingüísticos
praticado por uma comunidade sociocultural privilegiada, com bom índice de escolarização e acesso aos bens
culturais das elites. Trata-se de um registro marcado pela obediência às normas gramaticais ígidas, que evidenciam
aspectos elaborados da língua. É a linguagem que tem prestíio junto ao grupo social, servindo de modelo lingüístico
para a comunidade em geral.

2. Linguagem coloquial

A linguagem coloquial, utilizada na comunicação do dia-a-dia, caracteriza-se por uma certa flexibilidade gramatical e
evidencia um aspecto mais simples da língua.

A linguagem coloquial pode se dividida em dois tipos: informal e popular. O primeiro, regido pelas normas
lingüísticas, revela a linguagem das classes privilegiadas com um índice maior de educação formal, enquanto o
segundo, mais espontâneo, sem a preocupaço de seguir uma gramática disciplinada, é praticado pelas classes
populares da socedade, com acesso restrito à escolarização e aos bens culturais da classe dominante.

3. Dialeto

O dialeto é uma variação regional ou social de uma língua. É uma forma própria de uma língua, praticada por
falantes de uma certa região ou de uma classe social específica, com diferenças lingüísticas na pronúncia, na
construção gramatical e na sintaxe, em como no uso do vocabulário.

Normalmente, o falante de um dialeto entende um outro dialeto de sua língua. Há, no entanto, casos em que um
dialeto se distancia tanto da linguagem padrão, que se torna difcil para o falante de outro dialeto entendê-lo,
dificultando, assim, a comunicção entre falantes das duas variedades lingüísticas em questão.

4. Gíria

A gíria é uma linguagem peculiar oriunda de um determinado grupo (social ou profissional) que, por ser expressiva,
normalmente passa a ser utilizada pela comunidade em geral.

Há dois tipos de gíria: o de domínio técnico (jargão profissional) e o de domínio popular (social). O jargão é uma
linguagem praticada por pesoas que exercem a mesma atividade, por exemplo, atores, jornalistas, bandidos,
prostitutas, enquanto a gíria de domínio popular é praticada por um certo grupo social.

A gíria nasce pela mudança de significado de palavras já existntes na língua (fumo, legal, perua), pela criação de
palavras novas (brega, fofoca, rlé) e, até mesmo, por empréstimos de palavras estrangeiras (boy, cafona, suíngue).

5. Linguagem literária

A linguagem literária está para o escritor assim como as tintas e os pincéis estão para o pintor. É, pois, a linguagem
do artista, variedade lingüística que apresenta, normalmente, bastante rigor em relação às normas prescritas pela
gramática.

Em geral, a linguagem literária revela-se apurada e elegante com características diversas: ordenação especial do
pensamento, clareza de idéias, vocabulário rico, precisamente selecionado, e estilo requintado. Trata-se de uma
linguagem elaborada em função de uma gama bastante diversificada da experiência humana.

Visto que a escrita não dispõe dos mesmos recursos da fala, os escritores selecionam elementos lingüísticos -
adjetivação e linguagem figurada - que possam imprimir mais expressividade à linguagem. Muitos autores
modernos e contemporâneos registram em suas obras a linguagem coloquial, numa tentativa de aproximar a
linguagem literária da oralidade.

Diante disso, a linguagem literária vem se modificando ao longo das décadas e, s vezes, foge àquelas
características tradicionais rígidas. Torna-se uma linguagemmais flexível e democrática, com o registro de uma
outra variedade lingüística.

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Vícios de Linguagem

Chama-se vício de linguagem a maneira de falar ou escrever que está em desacordo com os princípios da gramática.

Obviamente, só ocorrerá vício de linguagem quando houver um "erro socializado", isto é, um desvio da norma padrão
que é apresentado como um hábito lingüístico por parte de um grupo social.

Os vícios de linguagem devem, sempre que possível, ser evitados. No entanto, é preciso lembrar que a preocupação
obsessiva com as normas da gramática pode tornar a linguagem pouco natural, pois tolhe, muitas vezes, a
espontaneidade e a criatividade lingüística do falante ou do escritor.

Os vícios de linguagem mais comuns são: Ambigüiguidade ou anfibologia, Arcaísmo, Barbarismo, Cacófato, Colisão,
Eco, Hiato, Pleonasmo vicioso e Solecismo.

1. Ambigüidade ou anfibologia

Ambigüidade é a possibilidade de uma mensagem admitir mais de um sentido, algo que é, em geral, decorrente da
organização inadequada das palavras na frase. Exemplos:

Não há dúvida de que ama o pai o filho.
(Afinal, quem ama quem?)

Deixei Renato no aeroporto. Estava triste, confuso, quase desatinado.
(Afinal, quem estava perturbado? Renato ou o narrador?)

2. Arcaísmo

Arcaísmo é o emprego de palavras ou expressões antigas que caíram em desuso. Exemplos:

Parece que vai chover. Mudou-se asinha o tempo.
(= depressa)

Ninguém desconfiava que ela fosse mulher de má nota.
(= prostituta)

3. Barbarismo

Barbarismo é todo erro relacionado à forma da palavra ou à sua significação. Exemplos:

a) pronúncia:

errada          correta


crisantemo   crisântemo
póssamos      possamos
rúbrica         rubrica

NOTA
Esse tipo de erro de pronúncia, com deslocamento do acento tônico, recebe o nome de silabada.

b) grafia:

errada           correta

mexirica        mexerica
recrusdecer  recrudescer
viajem           viagem

NOTA
Dá-se o nome de cacografia aos erros de grafia.

c) significação:

Qual é a quantia de açúcar que devo usar para fazer a torta de morango?

No exemplo acima, devemos usar a palavra quantidade, pois refere-se à medida de um ingrediente. A palavra quantia
é usada quando nos referimos a dinheiro. Portanto, devemos dizer:

Qual é a quantidade de açúcar que devo usar para fazer a torta de morango?

Ela ganhou uma vultuosa soma na loteria esportiva.

A palavra vultuosa está incorretamente empregada, pois significa atacada por vultuosidade (= congestão da face).
Nesse contexto, devemos empregar a palavra vultosa
(= grande).

d) estrangeirismo:

errado      correto

bife roulé   bife enrolado
chance       oportunidade
show           espetáculo

NOTA
O estrangeirismo se constitui num vício de linguagem quando é usado sem necessidade, isto é, quando no vernáculo
já existe um termo equivalente ou aportuguesado.

4. Cacófato

Cacófato é um som desagradável, ou uma palavra obscena, proveniente da união de sílabas de vocábulos contíguos.

A boca dela é imensa.
Uma prima minha chegou de Paris.

5. Colisão

Colisão é uma seqüência de consoantes iguais ou semelhantes que produz som desagradável.

A rainha recebeu rosas do rei.
Você se secou ao sol?

6. Eco

Eco é a repetição desagradável de sons idênticos no final de palavras que se seguem. É a rima na prosa.

A mente doente de Vicente provocou um novo acidente.
No momento o avermelhamento será tratado com um ungüento que aliviará o seu sofrimento.

7. Hiato

Hiato é a denominação que recebe o encontro de vogais que produz um som desagradável.

Você irá a Roma a pé?
Não há aula porque não há água na escola.

8. Pleonasmo vicioso

Pleonasmo vicioso é uma repetição desnecessária de termos. Trata-se de uma falha lingüística grave que deve ser
evitada.

Ela é a protagonista principal da peça.
É melhor você entrar para dentro já!
Descer a ladeira para baixo é mais fácil.

9. Solecismo

Solecismo é o nome que se dá a qualquer erro de sintaxe. Há três tipos de solecismo:

a) de concordância:

Fazem cinco anos que não tiro férias.
(Faz cinco anos que não tiro férias.)

Aluga-se salas em edifício comercial.
(Alugam-se salas em edifício comercial.)

Ele deu só uma telefonema.
(Ele deu só um telefonema.)

b) de regência:

Eu assisti um verdadeiro ato de selvageria.
(Eu assisti a um verdadeiro ato de selvageria.)

João namora com Sílvia.
(João namora Sílvia.)

Trata-se de algo comum com os ciganos.
(Trata-se de algo comum entre os ciganos.)

c) de colocação:

Me parece que ela ficou doida.
(Parece-me que ela ficou doida.)

Ontem contaram-lhe que Paulo fugiu.
(Ontem lhe contaram que Paulo fugiu.)

Em tratando-se de honestidade, ele não é um bom exemplo.
(Em se tratando de honestidade, ele não é um bom exemplo.)


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